
Há pouco mais de um mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apareceu pedindo aos eleitores latinos que, nas eleições de meio de mandato, votassem em republicanos. Os resultados, porém, refletiram o que a imprensa acabou chamando de "onda democrata”, que retirou o controle do Congresso das mãos do atual presidente americano.
Analistas políticos dos Estados Unidos e pesquisas de opinião já previam esse movimento devido ao descontentamento dos eleitores com a inflação e com os rumos que o país tomou.
No caso dos latinos, a insatisfação com as medidas adotadas por Trump foi ainda maior devido à política de deportação aplicada pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês). Além de ser violenta, ela afetou o funcionamento econômico de setores fundamentais, como a agricultura e a construção civil, que perderam mão de obra latina, fundamental nesses setores.
O fim da "lua de mel" de Trump com os eleitores latinos parece ter acabado nas eleições de meio mandato. Quando foi eleito presidente para o seu segundo mandato, Trump obteve 48% dos votos do eleitorado latino, no entanto, agora seu partido recebeu apenas entre 28% e 30% destes votos.
Para Julio Sevilla, analista político da Universidade da Geórgia, o voto latino funcionou como um voto de repúdio às políticas do governo e demonstrou que, em alguns casos, foi um fator decisivo, como ocorreu em situações específicas.
"No caso do Texas, por exemplo, onde o maior grupo de eleitores é formado por latinos, que representam 40% da população, vimos uma importante vitória democrata com a eleição da primeira governadora latina daquele estado. Ninguém sabia quem era Gina Hinojosa, e ela será a mulher mais poderosa dos Estados Unidos a partir de janeiro, quando assumir a liderança do segundo maior estado do país. Acredito que essa vitória pode ser atribuída, em grande parte, à mudança de posicionamento dos eleitores latinos. A vitória de Javier Becerra na Califórnia também merece destaque", avaliou.
Os latinos se tornaram o eleitorado mais imprevisível dos Estados Unidos. Eles formam uma comunidade de aproximadamente 68 milhões de pessoas, dentre os quais 39 milhões são aptos a votar, cerca de 16% do eleitorado nacional. Trata-se do segundo grupo étnico com maior peso eleitoral no país, atrás apenas dos brancos.
No entanto, o número de eleitores latinos continuará crescendo ao longo dos anos, tornando-se cada vez mais um fator decisivo nos processos eleitorais.
"Nem os democratas nem os republicanos podem considerar garantido o voto latino. É um voto que precisa ser conquistado, que saberá punir quando necessário e que está disposto a mudar de uma eleição para outra. É um voto muito volátil. O voto mais ‘swing', como costumamos dizer aqui, é o dos latinos", detalha Sevilla.
Segundo o especialista, é muito provável que, na próxima eleição, o apoio latino aos democratas se repita, porque as margens obtidas por esse partido nesta eleição foram impressionantes. "Eles venceram em lugares impensáveis, como a Carolina do Sul. Portanto, essa ‘onda democrata' que vimos dificilmente será evitada pelos republicanos em 2028, porque Trump continua sendo o presidente."
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