
A possível indicação do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), para o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente Lula da Silva (PT) enfrenta resistências dentro do próprio grupo governista. Aliados do presidente temem que Fonteles repita o caminho político do ex-governador da Bahia Waldir Pires, que deixou o comando do estado antes do fim do mandato para disputar a Vice-Presidência da República em 1989 e acabou sem o governo estadual e sem vitória eleitoral.
Segundo informações publicadas pela Coluna do Estadão, dirigentes petistas têm utilizado o episódio envolvendo Waldir como exemplo dos riscos de uma eventual saída antecipada de Fonteles. A avaliação é que o governador pode frustrar parte dos eleitores piauienses que lhe garantiram uma expressiva vitória nas urnas e comprometer seu futuro político ao trocar um mandato conquistado democraticamente por um cargo no governo federal.
Fonteles foi reeleito no primeiro turno com 70,90% dos votos válidos, o equivalente a mais de 1,4 milhão de votos. O resultado consolidou sua liderança política no estado e ampliou seu peso nas articulações nacionais do PT.
A preocupação dos aliados é que, ao deixar o Palácio de Karnak para assumir a equipe econômica em Brasília, o governador abra mão de uma posição de força política sem garantia de permanência no ministério. Caso Lula decida substituí-lo durante o mandato, Fonteles poderá ficar sem o governo estadual e também sem espaço na Esplanada dos Ministérios.
O caso lembrado pelos petistas aconteceu em 1989. Waldir Pires (PMDB-BA), eleito governador da Bahia em 1986, renunciou ao mandato em maio de 1989 para integrar como vice a chapa presidencial encabeçada por Ulysses Guimarães.
Na ocasião, Waldir também tinha interesse em disputar a Presidência, mas acabou formando uma composição com Ulysses após a convenção nacional do partido. A chapa terminou a eleição em sétimo lugar, com apenas 4,73% dos votos, enquanto Fernando Collor foi eleito presidente, derrotando Lula no segundo turno.
A decisão de abandonar o governo baiano provocou críticas e desgaste político. Em entrevista à Rádio Metrópole, em 2013, Waldir Pires afirmou que deixar o cargo havia sido um dos maiores sacrifícios de sua vida. Ele justificou a escolha como uma tentativa de evitar que o país chegasse à Presidência com uma candidatura que considerava incompatível com sua trajetória política.
No entorno de Lula, outra preocupação é que a renúncia de Fonteles ao governo estadual possa transformá-lo em um ministro praticamente impossível de demitir politicamente, já que ele teria abandonado um mandato conquistado nas urnas para assumir a função federal.
A resistência ocorre em meio à disputa interna no PT pelo comando da economia. Além de Fonteles, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, também aparecem nas articulações sobre a composição da equipe econômica.
Fonteles, por sua vez, já negou ter tratado diretamente com Lula sobre a possibilidade de assumir um cargo no governo federal. O governador também participou de conversas reservadas com o presidente em Brasília, conforme informações divulgadas pelo UOL.
O episódio de Waldir Pires, portanto, passou a ser utilizado como alerta dentro do PT: trocar um mandato estadual respaldado por uma votação expressiva por um ministério pode representar uma aposta de alto risco para o futuro político de Rafael Fonteles.
Mín. 24° Máx. 27°