
Os agentes de inteligência artificial já acumulam seis horas de atividade para cada hora de trabalho humano na Anthropic, empresa responsável pelo desenvolvimento do Claude. O dado faz parte de um estudo interno divulgado em outubro e revela como a tecnologia está transformando a organização das empresas, a produtividade e o perfil das contratações.
O levantamento aponta que, em agosto de 2026, as horas de atividade dos agentes interativos chegaram a seis vezes as horas estimadas de trabalho dos funcionários. A comparação considera o tempo de execução dos sistemas, incluindo ferramentas auxiliares, enquanto a jornada humana foi calculada com base em uma semana de 40 horas.
A mudança já aparece nas contratações da própria Anthropic. A empresa reduziu a participação de profissionais iniciantes nas vagas técnicas, enquanto os funcionários passaram a produzir mais código, realizar vendas e processar contratos com o auxílio dos agentes de IA.
Em entrevista ao programa Prime Time, da CNN Brasil, o especialista em inteligência artificial e colunista Álvaro Machado Dias afirmou que o papel dos profissionais está se aproximando de funções de gestão. Em vez de executar todas as etapas de uma atividade, o trabalhador passa a elaborar instruções, acompanhar a execução dos sistemas e conferir os resultados.
Segundo o especialista, as empresas estão mudando os critérios de contratação e priorizando profissionais com conhecimentos técnicos que possam ser aplicados diretamente aos fluxos automatizados. Esse movimento reduz oportunidades para trabalhadores iniciantes, que tradicionalmente ingressavam no mercado por meio de tarefas operacionais.
Machado Dias também citou uma redução de 9% nas contratações do setor de tecnologia e avaliou que a tendência pode alcançar outras áreas da economia.
O uso de agentes de IA não está restrito às empresas de tecnologia. Segundo Machado Dias, setores com grande volume de atividades repetitivas podem incorporar essas ferramentas com relativa facilidade.
Em bancos, os sistemas podem analisar documentos e auxiliar na avaliação de crédito. Em escritórios de contabilidade, podem preencher declarações fiscais, enquanto no comércio conseguem atender clientes pelo WhatsApp e consultar estoques simultaneamente.
No Brasil, a adoção da tecnologia também avança, embora os índices variem conforme o levantamento e o perfil das empresas analisadas. A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br, apontou que 17% das empresas brasileiras utilizaram inteligência artificial naquele ano. Entre as grandes empresas, com 250 ou mais pessoas ocupadas, o percentual chegou a 50%.
O avanço da automação também cria um novo problema: a capacidade humana de acompanhar tudo o que as ferramentas produzem. Machado Dias destacou que a velocidade dos agentes pode superar a capacidade dos funcionários de revisar relatórios, análises e decisões geradas pelos sistemas.
O especialista alertou para os riscos do excesso de confiança na inteligência artificial, especialmente quando resultados são utilizados sem verificação adequada. Nesse cenário, a produtividade aumenta, mas também cresce a possibilidade de erros passarem despercebidos.
A transformação indica que o mercado de trabalho não depende apenas da capacidade de utilizar ferramentas de IA. Saber orientar, supervisionar e avaliar o desempenho desses sistemas tende a ganhar importância na definição das oportunidades profissionais.
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