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domingo 26 de maio de 2024 às 17:45h

O que está por trás da alta de casos de coqueluche na Europa

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Doença já infectou 32 mil pessoas no continente de janeiro a março deste ano. Se tendência continuar, os casos de coqueluche poderão aumentar cerca de dez vezes em 2024 em comparação com um ano habitual. No inverno europeu de 2023, especialistas em saúde de todo o continente começaram a notar um fenômeno incomum: os casos de coqueluche estavam aumentando.

No Reino Unido, por exemplo, o número de casos atingiu o ponto mais alto em duas décadas. Mas isso não estava ocorrendo apenas na Europa. As autoridades de saúde dos EUA também começaram a relatar um aumento.

Somente entre janeiro e março de 2024, foram registrados 32 mil casos de coqueluche na Europa – para comparação, a média anual fica em torno de 38 mil, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), que divulga esse dado desde 2011. Se a tendência continuar, os casos de coqueluche poderão aumentar cerca de dez vezes em 2024 em comparação com um ano habitual.

De acordo com os números apresentados no último relatório do ECDC, a maioria dos casos europeus ocorreu em crianças, faixa etária para a qual a doença é mais mortal.

Apesar disso, esses números precisam ser interpretados com cautela, pondera Paul Hunter, professor de medicina da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. Isso porque o número de casos pode ser, na verdade, ainda maior.

Como os bebês correm risco mais alto quando se trata da doença, eles normalmente têm muito mais probabilidade de receber um diagnóstico do que indivíduos de outras faixas etárias. Muitas pessoas mais velhas, porém, também podem ter contraído coqueluche e não terem sido diagnosticadas.

Por outro lado, Hunter explica que também é possível que haja uma espécie de “efeito de contágio”. Como os médicos estão cada vez mais conscientes da coqueluche, é mais provável que deem um diagnóstico do que no passado – fator que também pode distorcer os números.

Por que os casos estão aumentando

Especialistas ainda não sabem diter com certeza por que os casos estão aumentando. Tal como acontece com a maioria dos surtos de doenças infecciosas, isso pode ter relação com uma série de fatores diferentes atuando ao mesmo tempo.

Juntamente com um declínio da vacinação em bebês, está também a queda constante na imunização durante a gravidez em toda a Europa – o que também ajuda a explicar o grande número de casos em bebês.

Mães não vacinadas durante a gestação não transmitem anticorpos aos bebês recém-nascidos. “Você só começa a vacinar crianças contra a coqueluche por volta das oito semanas”, explica Hunter. “E a maior parte das doenças mais graves ocorre frequentemente antes disso.”

As taxas de vacinação contra a doença durante a gravidez variam amplamente em todo o continente europeu, de acordo com o relatório de maio do ECDC. Na Espanha, cerca de 88% das grávidas foram vacinadas em 2023. Na República Tcheca, onde foi registrado um aumento acentuado nos casos, esse índice foi de apenas 1,6%.

No Reino Unido, a adesão entre as grávidas diminuiu ao longo da última década, de cerca de 70% em 2016 para aproximadamente 60% em 2023.

O papel da covid-19

Além disso, o aumento pode estar relacionado, pelo menos em parte, ao que as autoridades de saúde chamam de queda na imunidade da população desde a pandemia de covid-19.

Com os protocolos rigorosos adotados durante a pandemia para evitar o SARS-CoV-2 – como uso de máscaras, higiene das mãos, menos aglomeração –, os casos de gripe e estreptococos atingiram mínimos históricos.

Desde o fim da pandemia, os casos voltaram a aumentar. Mas Hunter diz que isso não explica totalmente o aumento drástico da coqueluche.

Isso porque a doença não estava presente na população em níveis elevados antes da pandemia – existia, mas era rara, não como a gripe. E os casos de gripe talvez tenham duplicado nos anos desde a pandemia, segundo Hunter – e não aumentado dez vezes, como estamos prestes a ver com a coqueluche.

Vacina contra coqueluche

O terceiro provável fator complicador para a alta poderia ser as próprias vacinas contra a coqueluche, dizem os especialistas.

O primeiro imunizante contra a deonça foi introduzido em meados do século 20 em países desenvolvidos como EUA, Canadá e partes da Europa. Embora tenha sido muito eficaz, foi associado a efeitos colaterais negativos. A queda acentuada na imunidade contra a doença levou a surtos nas décadas de 70 e 80.

Durante o final da década de 90 e início da década de 2000, os países começaram a introduzir uma vacina de segunda geração – desta vez uma injeção acelular (desenvolvidas a partir de fragmentos de uma bactéria), em vez de uma vacina celular.

Embora não tenha provocado os efeitos secundários associados à primeira vacina, essa versão foi ligeiramente menos eficaz, conferindo imunidade por um período de tempo mais curto.

O que pode ser feito

O aumento de casos apresenta é um desafio para os médicos, destaca Andrew Preston, professor e especialista em coqueluche da Universidade de Bath, no Reino Unido.

Os reforços de vacinação podem ser uma opção para reduzir o contágio, mas “não está totalmente claro com que frequência é possível se imunizar sem perder a eficácia”.

Ou será necessário se acostumar com a ideia de que “desde que consigamos evitar que os bebês fiquem gravemente doentes e morram, todos os outros tenham que lidar com uma tosse crônica de vez em quando?”, destaca Preston.

Existem novas vacinas contra coqueluche, explica, algumas das quais poderiam transferir imunidade “muito superior” em comparação com as duas disponíveis atualmente.

Mas, segundo ele, seria difícil introduzir essas doses no calendário atual de vacinas. Isso porque o imunizante contra a coqueluche é combinado com outras cinco vacinas numa única dose no Reino Unido e na maior parte da Europa, motivo pelo qual a introdução de uma nova injeção exigiria uma reestruturação.

“Teríamos que reformular todas as outras vacinas, e isso é uma tarefa monstruosa”, destaca Preston.

A situação no Brasil

No Brasil, a vacina para coqueluche faz parte do calendário de imunização do Sistema Único de Saúde (SUS) e devem ser imunizadas crianças de até 6 anos, 11 meses e 29 dias. Há também uma vacina específica para gestantes e profissionais de saúde que atuam em maternidades e em unidades de internação neonatal, atendendo recém-nascidos e crianças menores de um ano de idade.

Grávidas devem fazer uma dose da vacina do tipo adulto (dTpa) a partir da 20ª semana a cada gestação. A imunidade não é permanente, após cinco a dez anos, em média, da última dose da vacina, a proteção pode ser pouca ou inexistente.

Em 2021, 2022 e 2023 foram confirmados 159, 244 e 214 casos de coqueluche no Brasil, respectivamente. Este ano, foram 31 casos até 22 de baril, de acordo com o Ministério da Saúde.

A coqueluche é uma infecção respiratória e causada pela bactéria Bordetella Pertussis.

Os sintomas podem se manifestar em três níveis. No primeiro, o mais leve, são parecidos com os de um resfriado, incluindo mal-estar geral, corrimento nasal, tosse seca e febre baixa. No estágio intermediário, a tosse seca piora e, no estágio mais avançado, pode ser tão intensa que pode comprometer a respiração, provocar vômitos ou cansaço extremo. Geralmente, ossintomas da coqueluche duram entre seis a 10 semanas.

A transmissão ocorre, principalmente, pelo contato direto do doente com uma pessoa não vacinada por meio de gotículas eliminadas por tosse, espirro ou até mesmo ao falar. Em alguns casos, a transmissão pode ocorrer por objetos recentemente contaminados com secreções de pessoas doentes. O tratamento da coqueluche é feito basicamente com antibióticos, sob orientação médica.

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