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sábado 9 de setembro de 2023 às 14:36h

Sergio Gabrielli troca petróleo por renováveis em megaparque no interior da Bahia

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Afastado dos holofotes desde que saiu da Petrobras, o baiano e ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli, um dos responsáveis pela exploração do pré-sal no País, abandonou o setor de petróleo. Como consultor técnico, trabalha na construção de um megaparque de energia renovável no interior na Bahia, com direito a cinco parques eólicos que vão somar 14 gigawatts para produzir querosene de aviação renovável (SAF), diesel e gasolina sustentáveis e hidrogênio verde por eletrólise.

Ao Estadão/Broadcast, Gabrielli informa que no momento estão sendo definidas as partes técnicas e econômicas, mas a expectativa é de que o projeto entre em operação entre 2027 e 2028, com produção em larga escala de SAF, “que vai dobrar a produção do País.” A ideia também é produzir etanol com sequestro de hidrogênio para fazer metanol, e do metanol fazer o SAF, explica.

“Estou apostando no hidrogênio verde e os combustíveis sintéticos (sem petróleo) na rota por eletrólise do etanol ou na área de biogás, que são rotas de produção dos combustíveis que podem substituir os combustíveis fósseis”, afirma.

Mas a mudança não significa que ele aposte no fim do petróleo. Muito pelo contrário, Gabrielli ainda vê uma vida longa para a commodity, com queda relativa da demanda, mas com crescimento em termos absolutos. Para ele, isso coloca o Brasil em destaque no mundo por causa dos gigantescos reservatórios do pré-sal, descoberto durante a sua gestão e hoje considerado absolutamente estratégico, mesmo com a transição energética.

Brasil

“Se não fosse o pré-sal, eu nem sei o que seria do Brasil hoje. Atualmente, mais de 70% da produção brasileira vem do pré-sal, somos exportadores. Se nós não tivéssemos a maluquice de fazer aquele primeiro poço de US$ 240 milhões, não sei o que seria hoje”, diz, referindo-se ao primeiro poço de Tupi, na bacia de Santos, batizado com o nome de Lula, mas que voltou a se chamar Tupi por decisão judicial, relembra.

Ele destaca que para o sucesso da exploração da então nova fronteira foram fundamentais três decisões da companhia. A primeira foi insistir na expansão da exploração, mesmo com a dificuldade na época de se encontrar sondas de perfuração no mercado para águas ultraprofundas. A segunda foi crescer em pesquisa e desenvolvimento (P&D), expandindo o Centro de Pesquisa da empresa (Cenpes). A terceira foi a montagem de redes temáticas de P&D com 70 universidades brasileiras.

“Nós já tínhamos a hipótese de que teria pré-sal, mas não havia ainda instrumentos de sísmica que fossem capazes de atravessar o sal, porque o sinal sísmico é um sinal de som que reverbera na rocha e você consegue ver o que está na rocha. Só que o quando ele passa pelo sal, ele perde o rumo”, recorda, informando que a continuidade dos estudos foi possível com o esforço de jovens matemáticos e físicos da Petrobras que desenvolveram algoritmos matemáticos que conseguiram filtrar os sinais e possibilitaram uma melhor visualização através do sal.

Depois de superados inúmeros desafios tecnológicos veio a surpresa. A estimativa de produzir cerca de 10 mil barris de petróleo por poço na nova região foi superada em mais de cinco vezes, com produção de 60 a 70 mil barris por dia, o que reduziu o custo de produção.

“O primeiro poço perfurado foi dificílimo, porque muita gente desistiu. A Chevron desistiu, a Exxon desistiu, a Shell desistiu e a gente prosseguiu, e encontramos o campo de Tupi”, informa. “Com o aprendizado e a verificação das condições reais a dificuldade foi diminuindo. Hoje o petróleo do pré-sal compete com várias áreas do Oriente Médio com um custo de US$ 2/US$ 3 por barril”, ressalta.

Margem

Por este motivo, Gabrielli defende que a estatal mantenha os planos de explorar a Margem Equatorial, afirmando que o “pré-sal é fundamental, mas não eterno”, e que a busca de novas reservas se faz necessária para manter o nível de produção do País. Ele vê nas negativas do Ibama de conceder licenciamento ambiental para a exploração da área pela Petrobras como uma posição que enxerga mais um problema climático do que ambiental.

“Há uma diferença do problema ambiental e climático. O problema ambiental é poluição, vazamento, acidente, destruição de bioma. Isso você tem medidas de remediar, você aumenta controles, a frota de veículos para evitar a expansão do vazamento. Mas existe uma questão que se chama eventos climáticos, que aumenta a temperatura e provoca desastres, e é nesse viés que o Ibama está olhando”, avalia.

Para ele, essa visão do Ibama “não tem salvação, é interpretação do que vai ser o futuro”, e por isso prevê a judicialização do caso.

“A Petrobras já andou pela Margem, é uma área muito complicada, de correntes muito fortes, com condições ambientais frágeis, mas vários poços já foram perfurados lá. A Petrobras tem um belo histórico em Urucu (AM), de convivência com a mata de maneira fantástica”, afirma Gabrielli.

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