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O mapa da mina da eleição municipal

Urna eletrônica — Foto: Leo Martins/O Globo
terça-feira 9 de julho de 2024 às 14:05h

Recife, São Paulo, Vitória, Rio de Janeiro, São Gonçalo, Contagem, Guarulhos, Fortaleza, Salvador e Feira de Santana. Na eleição de 2020, o Partido dos Trabalhadores (PT) aplicou R$ 39,4 milhões nas campanhas a prefeito dessas dez cidades – o equivalente a 20% do valor gasto pelo partido (R$ 196,6 milhões) em todas as candidaturas para prefeituras e câmaras de vereadores nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

A taxa de aproveitamento desse investimento foi bastante baixa naquele ano. Dos dez candidatos com os maiores aportes petistas, apenas Marília Campos, de Contagem-MG, se elegeu. Marília Arraes (Recife), João Coser (Vitória), Dimas Gadelha (São Gonçalo), Elói Pietá (Guarulhos) e Zé Neto (Feira de Santana) tombaram no segundo turno; os demais (Jilmar Tatto, Benedita da Silva, Luizianne Lins e Major Denice) nem lá chegaram.

Para além da questão do sucesso ou fracasso dessas campanhas, a concentração das despesas dos fundos partidário e eleitoral nessas dez localidades indica a estratégia do PT no pleito municipal daquele ano.

De antemão, revela-se uma preferência regional, com destaque para o Sudeste e o Nordeste. A opção pelas capitais também é clara, a ponto de o partido ter gastado somas milionárias em tentativas com baixíssima probabilidade de sucesso (casos de Jilmar Tatto em São Paulo ou Major Denice em Salvador), apenas para marcar terreno.

É interessante notar, ainda, o foco em São Gonçalo, Contagem, Guarulhos e Feira de Santana – todas situadas entre as mais populosas de seus Estados, e que receberam bem mais recursos do que a maioria das capitais brasileiras.

O mapa da distribuição de recursos entre os candidatos do PT nas eleições de 2020 deixa antever que sua tática eleitoral tinha longo alcance. De modo agregado, o partido do presidente Lula concentrou quase a metade dos recursos no Sudeste (45,3%), onde estão os três maiores distritos eleitorais (SP, MG e RJ). Em seguida, vieram os estados nordestinos, com pouco menos de um terço do volume (29,2%).

O PT também é um dos partidos que mais dá prioridade às eleições majoritárias, destinando 70,8% da verba do fundão eleitoral para as disputas à prefeitura, deixando apenas 29,2% para seus candidatos a vereador. Além disso, concentra-se nos maiores municípios, especialmente aqueles com mais de 200 mil habitantes, onde há possibilidade de segundo turno (53,9%) e, portanto, a chance de se polarizar com um candidato de direita.

Essas escolhas mostram que o PT se valeu das eleições municipais em 2020 como parte de sua estratégia para voltar à Presidência da República dali a dois anos. Se, por um lado, o partido foi bem-sucedido em alcançar seu objetivo maior, por outro a eleição de uma bancada relativamente pequena para a Câmara dos Deputados foi o preço pago por essa opção, o que também já estava claro na distribuição dos recursos no pleito municipal de quatro anos atrás.

Outros partidos, porém, têm em mente outras metas. Tome-se o caso do PSD, de Gilberto Kassab. Em busca de fincar suas raízes nos rincões do país, o partido aplicou 48,9% do total gasto em 2020 (R$ 153 milhões) em municípios com menos de 50 mil habitantes, equilibrando melhor a repartição dos recursos entre as cinco grandes regiões.

Outras legendas investem pesadamente em preservar seus feudos locais. O PSB aplicou quase metade da verba recebida do TSE no Nordeste (46,3%); sendo que, desses, mais da metade vai para Pernambuco, reduto da família Campos Arraes, que comanda o partido.

Já os tucanos foram os que proporcionalmente mais fixaram seus gastos no Sudeste (53,1%). A investida deu certo, com o partido elegendo 173 prefeitos em São Paulo naquele ano – ganho efêmero, já que pouco mais de vinte permanecem no partido, segundo apurou a repórter Cristiane Agostine, para o Valor.

As eleições municipais acontecem daqui a três meses. Com muito mais dinheiro em caixa (o fundão subiu de R$ 2 bilhões para R$ 4,9 bilhões), a forma como os partidos vão gastar essa dinheirama pode definir o rumo da política brasileira a partir de 2026.

Por Bruno Carazza – Ele é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”. Escreve às segundas-feiras

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