
A eleição presidencial desse ano terminou com um resultado diferente daquele indicado pela maioria das pesquisas divulgadas antes do último domingo (25) do 2º turno. Enquanto os levantamentos apontavam vantagem para Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Lula da Silva (PT) venceu a disputa com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
O contraste provocou questionamentos sobre a metodologia dos institutos, mas especialistas apontam que a divergência não pode ser explicada por um único fator. É igual a uma queda de avião, diversos fatores estão relacionados. Entre as principais hipóteses estão a dificuldade de identificar mudanças rápidas no comportamento do eleitorado, a mobilização das campanhas e a decisão de parte dos brasileiros de definir o voto apenas nos últimos dias.
Um dos pontos considerados decisivos foi o aumento do comparecimento às urnas. Muitos idosos. No segundo turno, a participação chegou a 80,78% do eleitorado, acima dos 78,92% registrados no primeiro. A redução da abstenção representou milhões de eleitores a mais nas seções eleitorais, um movimento que pode ter favorecido a candidatura petista e cuja dimensão não foi antecipada adequadamente pelos levantamentos.
Outro desafio foi medir a influência das mobilizações digitais. A campanha de Lula investiu na convocação de eleitores pelas redes sociais e por grupos de mensagens, buscando ampliar a participação, especialmente entre pessoas que poderiam deixar de votar. Como o Brasil adota o voto obrigatório, estimar previamente quem realmente comparecerá às urnas é uma tarefa complexa para os institutos.
As escolhas feitas perto do dia da votação também tiveram peso. Levantamento da Quaest citado na análise mostrou que 6% dos entrevistados decidiram o voto na semana anterior ao pleito, enquanto 9% fizeram a escolha no próprio domingo. Embora os percentuais pareçam modestos, podem representar milhões de eleitores em uma disputa apertada.
A repercussão dos acontecimentos da reta final da campanha também pode ter influenciado o resultado, principalmente, pelas redes sociais. O último debate presidencial, realizado pela TV Globo na sexta-feira (23) anterior à votação, teve 'cortes' que foram avaliados por analistas como desfavoráveis a Flávio Bolsonaro (PL). Se repararem, no debate da Band Flávio estava sem gravata e foi melhor, sem ofender o addversário, no caso, Lula. Mas na Globo, ele estava de gravata e Lula não. Não só a fala dos 'nove dedos' foi considerada desrepeitosa, quanto o 'ar' de já ganhou, e o eleitor percebeu isso. Com isso, as reações nas redes ao confronto ganharam força durante o sábado, quando os institutos já não realizavam entrevistas para os levantamentos divulgados na véspera.
Especialistas também destacam que as pesquisas captam a intenção de voto no momento da entrevista, e não funcionam como previsão definitiva do resultado. Ainda assim, a concentração das estimativas em torno de uma vantagem para Flávio, em contraste com a vitória de Lula, expôs dificuldades na interpretação de movimentos do eleitorado e na projeção do comparecimento.
Após a eleição, representantes do setor reconheceram a necessidade de aperfeiçoar os modelos utilizados, principalmente na identificação de eleitores propensos a comparecer às urnas e na medição de mudanças de opinião próximas à votação.
O desafio também envolve fatores subjetivos, como rejeição, avaliação do governo, percepção sobre os candidatos e impacto dos debates. Esses elementos podem alterar rapidamente o cenário político, sobretudo em uma eleição marcada pela polarização.
A experiência de 2026 reforça que a margem de erro, embora seja um indicador estatístico importante, não elimina a necessidade de avaliar possíveis distorções na coleta e na interpretação dos dados. A diferença entre as pesquisas e o resultado oficial deve levar os institutos a revisar seus métodos e buscar instrumentos mais precisos para compreender o comportamento do eleitor brasileiro.
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