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Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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domingo 25 de fevereiro de 2024 às 16:03h

Capacidade do Brasil de ser ‘ponte’ está em xeque, afirmam analistas

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A política externa do governo Lula 3 e as falas polêmicas do presidente colocam em xeque a capacidade do Brasil de se apresentar como ponte entre países pobres e ricos, Ocidente e Oriente, Norte e “Sul Global”, na visão de analistas ouvidos por  Fabio Murakawa, do jornal Valor.

Essa habilidade será posta à prova em dois eventos nesta semana: a viagem de Lula à Guiana, em que Lula participa como convidado da Cúpula da Caricom (Comunidade do Caribe), e a São Vicente e Granadina, onde haverá o encontro de chefes de Estado da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos); e no encontro de presidentes dos Bancos Centrais do G20, em São Paulo. Os eventos servirão como teste para a capacidade do Brasil de exercer sua liderança regional, mediar o contencioso territorial entre Venezuela e Guiana e de conseguir mais financiamento dos países ricos para as nações em desenvolvimento.

Os encontros ocorrem no momento em que a política externa brasileira sofre questionamentos sobre sua neutralidade em conflitos como a guerra em Gaza, sobretudo após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter comparado a ofensiva israelense no enclave palestino ao Holocausto. Também há cobranças relacionadas ao processo eleitoral venezuelano, em que Lula reluta em condenar a prisão de opositores e a impugnação de candidaturas de rivais do presidente Nicolás Maduro. O presidente tem sido acusado ainda de adotar uma postura pró-Russia na guerra com a Ucrânia e na opressão a opositores de Vladimir Putin.

“Nominalmente, o objetivo estratégico da política externa do atual governo Lula é transformar o Brasil em uma ponte entre ricos e pobres, entre poderosos e fracos, entre o Norte e o Sul Global. A pergunta é: as coisas que ele está fazendo na prática ajudam ou atrapalham nesse objetivo?”, diz Matias Spektor, professor da escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Para Spektor, o padrão adotado nesses conflitos tem sido “em vez de se colocar como mediador, o Brasil se coloca tomando partido de uma das duas partes”.

“Isso não tem problema se o objetivo da política externa for tomar partido. Agora, se o objetivo for se tornar uma ponte, isso é altamente problemático”, afirma.

Para ele, a dificuldade de Lula em condenar os abusos cometidos por Maduro e sua crítica à “pressa” em apontar Moscou como culpada pela morte do opositor Alexei Navalny geram questões nos dois lados do tabuleiro geopolítico.

“Todo o mundo respirou aliviado quando o Lula venceu o [Jair] Bolsonaro na eleição. Porque ele é visto como um líder do Sul Global que tem credenciais democráticas inquestionáveis para os ocidentais. E, por outro lado, os chineses o veem como um líder com capacidade de ser firme contra o Ocidente, mas ao mesmo tempo arrancar concessões”, diz Spektor. “As declarações do Lula sobre o Navalny e sobre o Maduro fazem com que o Ocidente questione essas credenciais. E a pergunta na China é se o Brasil continua sendo capaz de organizar o Sul Global para dialogar e arrancar coisas do Ocidente.”

Felippe Ramos, pesquisador da New School for Social Research de Nova York, pondera ainda segundo reportagem de Fabio Murakawa, do Valor, que o atual contexto — de um mundo mais polarizado e conflitivo — contribui para empurrar o governo brasileiro a adotar posições mais fortes do que em décadas anteriores. Para ele, o Brasil aposta nos Brics (bloco liderado em conjunto com Rússia, China, Índia e África do Sul) como principal plataforma de sua projeção no mundo, “o que não é errado, mas traz dificuldades com o lado ocidental”.

“O mundo era diferente nos governos Lula 1 e Lula 2. Há uma fragmentação geopolítica e geoeconômica global, com o descasamento entre EUA e China”, diz ele. “Em 2005, era possível ser aliado dos EUA, da China e da Rússia simultaneamente. Mas é muito mais difícil e complexo manter uma relação de equilíbrio entre Ocidente e Oriente neste momento.”

Fontes do governo ouvidas pelo Valor, no entanto, discordam ao menos em parte com essas avaliações. No Planalto e no Itamaraty afirma-se que, embora o Brasil tradicionalmente se coloque como uma ponte entre lados antagônicos, o país também sempre foi uma voz crítica com relação às deficiências da ordem internacional.

“O Brasil está fazendo o que fez em outros momentos. O país tem uma histórica vinculação com o processo de descolonização da África e com a causa palestina, que se fortaleceu ao longo do período democrático no Brasil, à exceção do governo Bolsonaro. Mas as ênfases do Brasil mudaram [no Lula 3], o tom mudou”, diz uma fonte.

Para esse interlocutor, a mudança de ênfase é determinada “pelos retrocessos na ordem internacional e nos espaços de cooperação e de governança internacional”. É o caso da OMC (Organização Mundial do Comércio), “que foi inviabilizada por ação deliberada dos países desenvolvidos”, e também da ONU, incapaz de solucionar conflitos como o de Gaza e da Ucrânia. Além disso, o fortalecimento nas últimas décadas dos laços comerciais com a China e outros países da Ásia e do Oriente Médio também se reflete na política externa.

“A gente está descobrindo e desenvolvendo parcerias com países de nível de desenvolvimento parecido com o nosso. Isso é um elemento a mais para aproximar esses países”, diz a fonte. “Agora, deixa de ser apenas um movimento de países para menos desenvolvidos para criar caminhos para o desenvolvimento e passa a ser algo para dar um salto maior.”

Mas os integrantes do governo defendem que esse movimento não significa que o Brasil esteja se afastando do Ocidente. Prova disso, alega um deles, são as visitas de Lula a Washington e capitais europeias, como Londres e Madri, e também sua participação no encontro do G7 em Tóquio, em 2023.

As fontes do Planalto destacam ainda o fato de que, na semana passada, Lula recebeu os chanceleres da Rússia, Sergei Lavrov, e dos EUA, Antony Blinken, como atestado de que o Brasil ainda consegue dialogar com países antagônicos.

“Em nenhum momento houve qualquer sinalização, da nossa política externa, de distanciamento do Ocidente”, diz uma segunda fonte do governo. “Mas o mundo está em um momento de maior intensidade. Isso exige que a gente se coloque de maneira mais intensa. O que não significa deixar de ser moderado, equilibrado, e de ser um país construtor de pontes.”

Em entrevista ao Valor em janeiro, o principal assessor internacional de Lula, Celso Amorim, colocou os Brics como “a transformação mais importante nas relações internacionais dos últimos tempos”. E acrescentou que a consolidação do bloco servirá para fortalecer o G20, formado por economias ricas e emergentes, em detrimento do G7, que é um fórum exclusivo dos países desenvolvidos.

“Isso reforça o papel de ponte. Porque o Brasil joga de um lado, mas para criar um arranjo maior entre os dois lados”, diz a fonte.

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