A Ucrânia concordou com os termos de um grande acordo com os Estados Unidos envolvendo mineirais, segundo disse um funcionário de alto escalão em Kiev ao canal BBC News.

“Nós realmente concordamos com uma série de boas emendas e vemos isso como um resultado positivo”, disse o funcionário, sem fornecer mais detalhes.

Relatos na imprensa dizem que Washington retirou sua demanda inicial pelo direito a US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,8 trilhões) em receita potencial pela utilização dos recursos naturais, mas não deu garantias firmes de segurança à Ucrânia, que está devastada pela guerra com a Rússia.

Esta é uma demanda-chave da Ucrânia.

De acordo com fontes ucranianas, os EUA tiveram que recuar em algumas de suas demandas mais desgastantes para a Ucrânia, e muitos dos detalhes deste acordo exigirão mais negociações.

O site de notícias ucraniano Ukrainska Pravda relatou que o acordo sobre minerais deve ser assinado pelo ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, e pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Os dois países também teriam concordado em criar um fundo de investimentos para a reconstrução da Ucrânia.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse esperar que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, assine o acordo ainda esta semana.

Mapa mostra localização de minerais estratégicos na Ucrânia

Há poucos dias, os dois trocaram palavras fortes um sobre o outro.

Sem ainda confirmar que um acordo havia sido alcançado, Trump disse nesta terça-feira (25/02) que, em troca do acordo, a Ucrânia teria “o direito de lutar”.

“Eles são muito corajosos”, disse ele aos repórteres, mas “sem os Estados Unidos, seu dinheiro e seu aparato militar, esta guerra teria acabado em um período muito curto de tempo”.

Questionado se o fornecimento de equipamentos e munições dos EUA para a Ucrânia continuaria, ele disse: “Talvez até termos um acordo com a Rússia… Precisamos ter um acordo, caso contrário, vai continuar.”

Haveria necessidade de “alguma forma de manutenção da paz” na Ucrânia após qualquer acordo de paz, ele acrescentou, mas este precisaria ser “aceitável para todos”.

Na semana passada, Trump descreveu Zelensky como um “ditador” e pareceu culpar a Ucrânia, e não a Rússia, por começar a guerra.

As declarações de Trump vieram depois que o presidente ucraniano rejeitou as demandas dos EUA por US$ 500 bilhões em riqueza mineral e sugeriu que o presidente americano estava vivendo em um “espaço de desinformação” criado pela Rússia.

Trump tem pressionado pelo acesso aos minerais da Ucrânia em troca da ajuda militar e outros tipos de auxílio que já foram fornecidos a Kiev desde que Moscou lançou uma invasão em grande escala ao país vizinho, há três anos.

Mas Zelensky argumentou que nem de longe o auxílio americano teve essa dimensão, acrescentando: “Não posso vender nosso Estado.”

Na terça-feira, Trump disse que os EUA deram à Ucrânia entre US$ 300 bilhões e US$ 350 bilhões (de R$1,7 tri a R$ 2 tri).

“Queremos esse dinheiro de volta”, disse o presidente americano.

“Estamos ajudando o país a superar um problema muito, muito grande… Mas o contribuinte americano agora vai receber seu dinheiro de volta — mais.”

A vice-primeira-ministra da Ucrânia, Olha Stefanishyna, disse ao jornal Financial Times — o primeiro a noticiar o acordo — que as conversas relativas a minerais era “apenas parte de um quadro”.

“Ouvimos várias vezes do governo dos EUA que ele é parte de um quadro maior”, disse Stefanishyna, que liderou as negociações.

Com o acordo, um novo cenário da política externa no terceiro mandato de Trump está definido: a assistência dos EUA virá com condições.

Ajuda pura e simples — seja dada por razões humanitárias ou estratégicas — é uma coisa do passado.

Isso representa uma reorganização fundamental da política externa americana dos últimos 75 anos, desde os dias do Plano Marshall até o idealismo pós-Guerra Fria e o impulso da “Agenda da Liberdade” de George W. Bush para promover a democracia global.

A Ucrânia é apenas o começo. Espere que Trump e sua equipe apliquem o princípio “América Primeiro” em todo o mundo nos próximos quatro anos.

A Ucrânia tem enormes depósitos de elementos e minerais estratégicos, incluindo lítio e titânio, bem como depósitos consideráveis ​​de carvão, gás, petróleo e urânio.

São recursos que valem bilhões de dólares.

No ano passado, Zelensky apresentou um “plano de vitória” à Ucrânia e seus parceiros ocidentais. O plano propunha que empresas estrangeiras pudessem obter acesso a parte da riqueza mineral do país no final da guerra.

Nesta terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que estava aberto a oferecer aos EUA acesso a minerais raros, incluindo de regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia.

A Ucrânia e seus aliados europeus ficaram alarmados com um recente degelo nas relações EUA-Rússia, incluindo suas negociações bilaterais na Arábia Saudita na semana passada.

Kiev e a Europa como um todo se preocupam que possam ser excluídos de quaisquer negociações que visem acabar com a guerra — e que a segurança futura da região possa ser decidida pelas costas deles.

Que minerais a Ucrânia tem?

Estima-se que cerca de 5% dos materiais brutos estratégicos do mundo estão na Ucrânia, incluindo:

  • 19 milhões de toneladas de reservas comprovadas de grafite, usado para fazer baterias para veículos elétricos
  • Um terço de todas as reservas europeias de lítio, o principal componente das baterias atuais.

Antes da invasão pela Rússia, a Ucrânia também produzia 7% do titânio do mundo — usado na construção de tudo, de aviões a usinas de energia.

O solo ucraniano também contém depósitos significativos de metais “terras raras”, um grupo de 17 elementos usados ​​para produzir armas, turbinas eólicas, eletrônicos e outros produtos vitais no mundo moderno

Alguns depósitos minerais foram dominados pela Rússia.

De acordo com Yulia Svyrydenko, ministra da Economia da Ucrânia, recursos no valor de US$ 350 bilhões (cerca de R$ 2 tri) estão em territórios ocupados pela Rússia hoje.