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Protestos estudantis mostram por que Macron se tornou o líder político mais odiado da França

Presidente francês tem menor taxa de aprovação para o cargo em 60 anos e ocupa a penúltima posição em ranking de popularidade no país

22/10/2026 às 18h51
Por: Redação #Acesse Política
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Divulgação/Arquivo
Divulgação/Arquivo

“O que se passa na cabeça dessas pessoas? Como os franceses podem fazer isso com a França?”, foi o questionamento de Emmanuel Macron após os protestos do último sábado, 17, que levaram mais de 400 mil pessoas às ruas do país contra o aumento do custo de vida e por melhores condições escolares. Com uma expressão de indignação “à francesa”, o líder centrista falou ao país por oito minutos um mês depois das primeiras manifestações estudantis, em uma noite em que a França apagava seus incêndios em praças e prédios históricos.

O discurso, com afagos aos poderes públicos e pedidos de basta aos manifestantes, resumiria o que foram os nove anos de governo de Macron: alçado ao poder como uma promessa de renovação, o enfraquecido presidente francês sucumbiu ao teste de popularidade e seu governo, a seis meses do fim, parece já respirar por aparelhos.

O líder centrista, com apenas 15% de aprovação, é o mais impopular dos últimos 60 anos na França, de acordo com um levantamento do Ipsos, empresa de pesquisa e consultoria. Em uma lista divulgada pelo Ifop, um instituto francês de pesquisas populares, Macron aparece em 49º em uma lista de 50 nomes - perdendo apenas para Éric Zemmour, líder do partido de extrema direita Reconquista. Parte dessa insatisfação com a atual administração tem origem nos últimos dois anos, quando uma eleição parlamentar colocou a Assembleia Nacional em xeque.

“Constatamos, em grupos focais com eleitores que votaram em Macron no passado, que eles não sentem mais que o governo os representa ou os compreende. O custo de vida é, obviamente, um fator importante nesse contexto, mas a questão da lei e da ordem — crime e comportamentos antissociais — também teve enorme importância”, apontou Deborah Mattinson, membro da Câmara dos Lordes, na Inglaterra, e autora de uma pesquisa sobre como votam os eleitores na França, conduzida em conjunto com a diretora do Progressive Policy Institute, Claire Ainsley.

Após a votação para eurodeputados em 2024, Macron viu uma ascensão significativa do Reagrupamento Nacional (RN), o partido de direita radical de Marine Le Pen. Das 720 vagas do Parlamento Europeu, 81 eram destinadas à delegação francesa. Desses 81 assentos, 30 foram ocupados por membros do RN, sob a liderança de Jordan Bardella, além de outras cinco cadeiras ligadas movimentos de extrema direita no país.

Diante dos resultados negativos para o macronismo, o presidente francês dissolveu a câmara baixa da Assembleia Nacional - o equivalente à Câmara dos Deputados - e convocou novas eleições, com o objetivo de aumentar a proporção de aliados no governo. O movimento foi enfrentado por uma forte onda direitista.

Na época, uma espécie de frente ampla foi formada para impedir que a ala mais à direita da Assembleia tivesse maioria, o que resultou em um parlamento extremamente dividido e que dificultou ainda mais a forma de governar de Macron. À época, apesar do apoio da esquerda, o presidente preferiu preterir os progressistas na formação de seu gabinete.

A própria cúpula ao redor do presidente francês sofreu diversas mudanças ao longo dos nove anos. Foram sete primeiros-ministros - sendo cinco desde 2022, em seu segundo mandato. O atual premiê francês, Sébastien Lecornu, assumiu em setembro de 2025 e se viu responsável por tomar conta da repercussão e de atender às reivindicações dos estudantes durante a crise do ensino médio nas últimas semanas.

Praça da República, em Paris, foi um dos palcos dos protestos das últimas semanas  Foto: MATTHIEU RONDEL/AFP
“Esse é um momento de energia popular, tanto para a extrema esquerda quanto para a extrema direita. É preciso lembrar que se trata do ensino médio. São os alunos do ensino médio que estão protestando porque suas escolas estão em estado de abandono, recebem financiamento insuficiente, faltam professores. Há uma raiva popular muito forte em relação a isso”, afirmou Célia Belin, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Interferência externa

Se 2024 trouxe o clímax da crise política interna da França, com a dissolução da Assembleia e novas eleições, o ano seguinte adicionou um fator externo que dificultou ainda mais o comando de Macron: a eleição de Donald Trump para o seu segundo mandato nos EUA colocou a Europa de sobreaviso, com políticas menos voltadas para a proteção militar e acordos financeiros com o velho continente.

A crise com a Groenlândia, por exemplo, e as declarações de Trump de que não garantiria a segurança para países que “não colaborassem o suficiente” obrigou os europeus a pensarem em alternativas que pudessem viabilizar uma defesa própria. A proposta de aumento dos gastos do PIB em defesa, de 2% para 5% até 2035 também pressionou as contas públicas.

A França chegou a expandir o plano de independência dos americanos para seus setores de tecnologia. O governo anunciou que deixaria de utilizar plataformas de videoconferência de empresas dos EUA, como Google Meet e Microsoft Teams, para priorizar soluções nacionais. A iniciativa, além de cortar contratos milionários com as Big Techs, também visava aumentar a soberania da França sobre seus dados governamentais, muitos deles sigilosos, que poderiam ser processados em nuvem estrangeira.

Diante da obrigação de sair do guarda-chuva não confiável dos EUA, investir mais dinheiro em exército, armamento e tecnologia elevou, invariavelmente, os gastos públicos e foi um dos responsáveis pelo aumento da dívida. Com os anos de pandemia, a Guerra na Ucrânia e no Irã, a bola de neve chegou à população na forma de impostos e de preços mais altos nas prateleiras e nos boletos de aluguel.

O alto preço do petróleo levou à falta de combustível em diversas bombas pelo país e aumentou o preço da gasolina a ponto de ser preciso aprovar um auxílio de 100 euros para trabalhadores que dependiam de carro para se locomover. A indenização, que entrou em vigor no início de outubro, abrange os períodos de abril a dezembro deste ano e é destinada à trabalhadores de baixa renda. O mesmo tema foi um dos gatilhos para os protestos dos coletes amarelos em 2018.

Desde 2017, o reajuste do salário mediano, que ficou por volta de 22,8% considerando toda a era Macron, foi menor que a inflação do período, de 23,4%, segundo o Insee, instituto nacional de estatísticas francês. Atualmente, quase 39% da renda total francesa está nas mãos de apenas 20% da população - apesar do índice estável, esperava-se que o número diminuísse ao longo dos anos.

Ainda no primeiro mandato, Macron também aboliu o imposto sobre grandes fortunas, substituindo-o por uma tributação menor, que incidia apenas sobre o patrimônio imobiliário. A medida, uma das mais controversas de seus primeiros anos, trouxe ao presidente francês o apelido de “líder dos ricos”.

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“Muita gente considera que ele não se importa com as pessoas comuns, que ele é condescendente e paternalista, que acha que ‘sabe tudo melhor’. Macron também é visto como antipatriótico, priorizando a UE em detrimento da França”, apontou Deborah, em entrevista ao Estadão, sobre os resultados de sua pesquisa sobre o eleitorado francês.

Legado pré-eleições

A era Macron, ainda que tenha mais seis meses de vida, já é tratada como fim de festa. De acordo com os especialistas ouvidos pelo Estadão, os protestos, que reuniram diversos setores insatisfeitos, deixaram claro que o establishment não representa mais a maioria dos cidadãos franceses - o que significa que Macron e seus herdeiros políticos não estão nas graças do povo.

As conversas sobre o futuro da França não focam mais no que o governo Macron pode fazer, mas em como partidos de direita e esquerda podem instrumentalizar a insatisfação popular para suas próprias campanhas, visando a eleição em abril e maio do ano que vem.

O partido Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, tem usado as manifestações para indicar que apenas uma mudança radical pode colocar a França de volta nos eixos. O movimento, que deu ao RN o argumento de que a violência está sendo alimentada por partidos de extrema esquerda, veio em um momento estratégico para a legenda. Em setembro, uma reportagem do site Mediapart acusou Bardella de antissemitismo, depois que uma troca de mensagens entre o presidente do partido e outras pessoas se tornaram públicas. Bardella negou as acusações. Com o crescimento das manifestações estudantis, o assunto ficou esquecido pelo público.

Para Nonna Mayer, professora do Centro de Estudos Europeus e Política Comparada da Sciences Po Paris, mesmo com as acusações, o dano à imagem de Bardella e de Le Pen seria limitado diante da rejeição centrista que empurra muitos eleitores ao RN. O assunto, porém, ainda pode voltar como um trunfo para os partidos de esquerda.

“No núcleo duro de simpatizantes, militantes e eleitores do RN, isso não terá grande efeito. O primeiro reflexo será negar os fatos, vê-los como um erro de juventude ou uma conspiração contra o partido. (As intenções de voto) continuam muito altas para o partido e os efeitos desse tipo de escândalo são, frequentemente, passageiros”, afirmou Mayer em entrevista ao Estadão. “Mas é verdade que o antissemitismo corre o risco de se tornar uma questão importante, considerando o impacto do conflito israelo-palestino na opinião pública e sua instrumentalização. O caso Bardella é um lembrete que certamente será usado na campanha contra ela”.

Na esquerda, representada principalmente por Jean-Luc Mélenchon, os protestos foram usados como uma plataforma para mostrar como a ala pode apoiar os estudantes. O candidato do La France Insoumise (LFI), principal partido de extrema esquerda francês, foi às ruas junto com os manifestantes. Ciente das acusações tanto de Macron quanto de Le Pen de que seu partido estaria “sequestrando” o protagonismo dos estudantes, Mélenchon, de 75 anos, se juntou aos alunos criticando o governo atual e a repressão policial em várias cidades do país.

“Essa é realmente a rebelião dos jovens pobres e de suas condições de trabalho. E, assim, a extrema esquerda espera conseguir impulsionar um movimento a favor de mudanças na direção deles”, apontou Célia Belin.

Em todas as discussões, o sentimento intrínseco é que a definição de qualquer medida à longo prazo deve acontecer apenas a partir de maio do ano que vem, após o segundo turno das eleições. Do governo atual, a demanda é por soluções que podem se apresentar imediatamente - e que, depois das negociações dos últimos dias, ainda não satisfaz o desejo dos milhares de estudantes que desejam ir às ruas novamente no próximo sábado, 24 de outubro. Segundo os especialistas, para Macron resta, agora, apenas conter a multidão, evitar maiores danos e apagar a luz.

“Durante anos, Macron foi o símbolo do centro e agora ele é extremamente impopular. Basicamente ninguém quer ser seu sucessor, porque, a essa altura, ele deixou um legado tóxico”, afirmou Belin.

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