Para quem costuma fazer associações entre a popularidade e economia, a rápida erosão da aprovação do presidente Lula é ainda um mistério. Se por um lado há sinais de paralisia na atividade econômica no ar, por outro um crescimento de cerca de 3,5% do PIB em 2024 e menores taxas de desemprego da história sugeririam números mais generosos para a atual gestão. A rejeição ao Lula tem facetas conhecidas, mas também possui elementos enigmáticos.
Mas a questão não para por aí. O ponto seguinte é: como reverter essa popularidade hoje no vermelho? Inclusive, uma espécie de rubicão foi atravessado. Além do ex-presidente Bolsonaro – provavelmente um futuro presidiário pela tentativa de golpe de Estado – figurar na frente das intenções de voto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, já se encontra em empate técnico segundo sondagem da CNT/MDA. A maré está antipetista.
Em 2005, há 20 anos, Lula também enfrentou um inferno astral. Seu partido ficou seriamente abalado e companheiros de vida tiveram carreiras políticas exterminadas por causa do escândalo do mensalão. Mas no ano seguinte, 2006, Lula sagrou-se vencedor nas eleições derrotando o então fascista, então privatista, então fanático religioso Opus Dei, o ex-governador tucano Geraldo Alckmin – que atende neste momento como vice-presidente da República.
Há duas décadas Lula foi dado como morto politicamente. Decidiram “deixá-lo sangrar” até as eleições do ano seguinte, conforme expressão tão usada na época, para conquistarem novamente o Palácio do Planalto. Ficou fora do radar uma retomada surpreendente da economia a partir do chamado boom das commodities, processo que fez a arrecadação do Estado crescer e o otimismo e a sensação de bem-estar dos eleitores ser bem maior do que eventual reservas populares contra o PT. Um detalhe crucial, em seu primeiro mandato Lula se concentrou em ajustar as contas públicas e depois em distribuir benesses.
Mas o que o presidente tem hoje a apresentar? O que tem a esperar? Será que os programas “Pé-de-Meia” e “Farmácia Popular”, incensados ontem em rede nacional de TV, podem ter um papel semelhante ao poder eleitoral de um programa Bolsa Família? Sem chances. A sociedade é outra, os mais jovens não assistem mais televisão, e a oposição também lembra muito o PT dos anos 90: é implacável com o governo, só quer o seu pior. Há algum outro boom de commodities à vista? Não é o que dizem os especialistas. Pelo jeito, só um milagre – que não parece provável quando se examinam as circunstâncias.
Aliás, a pensar no programa oficial de televisão de ontem, os anúncios veiculados são páreo para correntes de WhatsApp que, verdadeiramente, mostram a primeira-dama Janja da Silva em viagem de classe-executiva para Roma, num valor acima de R$ 30 mil, mesmo sem ter direito legal a esse privilégio? São páreo para o ex-ministro Antonio Palocci, mesmo após tantas confissões públicas, estar livre das garras da lei? Que tipo de informação corre mais rápido, a oficial ou a das correntes anárquicas das redes? Será que alguém acredita de verdade que o governo é ótimo, mas prejudicado pelas fake news que embaçam a capacidade da sociedade de avaliá-lo? A ilusão é uma droga poderosa.
Há aquele dito de Maquiavel de que o mal se faz de uma vez e o bem aos poucos. Lula, que se acha o sabe tudo geral da humanidade, fez ao contrário. Optou pelo populismo e começou com o “bem”, ao estender o aumento do Bolsa Família no seu mandato. Agora, com inflação, déficit persistente, juros altos e certa paralisia econômica pela frente, parece só ter o mau aos poucos a mostrar. Talvez deveria ter ficado mais atento ao que dizia o pensador florentino da política real. Agora é tarde e a outra opção é o milagre ou uma divisão bizarra dentro da direita.