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quinta-feira 27 de fevereiro de 2025 às 06:04h

Pesquisa da Quaest mostra que Lula ignora alertas e pode ser surpreendido com derrota

DESTAQUE, ELEIÇÕES 2026, NOTÍCIAS


Em uma cena famosa do livro “O Sol também se levanta”, de Ernest Hemingway, um personagem pergunta a outro como foi que ele faliu. O sujeito responde: “De duas maneiras. Primeiro, gradualmente, e então de repente”. Para o governo do presidente Lula da Silva (PT), os resultados da última pesquisa Quaest mostrando conforme Malu Gaspar, do O Globo, que a reprovação ao governo já superou a aprovação nos oito principais estados brasileiros é uma espécie de “gradualmente”.

Mês após mês, vários institutos de pesquisa vêm indicando que o mau humor com o governo só aumenta, apesar de o PIB ter crescido 3%, de o desemprego estar em queda e a massa salarial em alta. Esse estado de coisas se repete até em regiões onde Lula é forte eleitoralmente, e o governo está bastante presente com seus programas sociais, como o Nordeste.

Embora se saiba que a inflação é um dos principais motivos, a insatisfação com os preços não é nova. O que parece justificar tamanho tombo na aprovação — comparável apenas ao sofrido por Dilma Rousseff depois das manifestações de junho de 2013 — é a crise do Pix, no início de janeiro, movida pela campanha da oposição sugerindo a fiscalização dos pagamentos acima de R$ 5 mil visava a cobrar mais impostos.

Desde então, os governistas se dividiram. Parte diz que se trata de maré passageira e que iniciativas como o PAC ou a vinda do novo ministro da Secretaria de Comunicação Social, a Secom, ainda podem revertê-la.

Outra ala defende que é preciso reagir rápido, melhorando a articulação política e aumentando o diálogo com o mercado, com o agro e com os evangélicos, para resistir ao avanço da direita sobre o eleitorado. Essa guinada, porém, depende de uma reforma ministerial que já vem sendo anunciada desde o ano passado e até agora não aconteceu.

A substituição de Nísia Trindade por Alexandre Padilha não muda o panorama — e o pouco que se sabe até agora do que deve ser a reforma é que petistas serão trocados por outros petistas.

O maior obstáculo para sair do impasse é o próprio Lula, que não só empurra as decisões com a barriga, como também parece não ver tanta necessidade assim de mudança. Em seu discurso no evento de 45 anos do PT, no fim de semana passado, ele enfileirou indicadores positivos e trilhões em investimentos, disse que nenhum outro fez tanto na área social e repetiu pela enésima vez que 2025 será o ano da colheita — não porque vá fazer qualquer mudança substantiva, e sim porque a comunicação do governo será diferente.

“Um governo que não dá informações não tem como o militante defender, e agora nós vamos dar as informações”, afirmou.

Para Lula, sua verdadeira guerra é contra as plataformas digitais e as fake news. Mas em 2025 isso mudará, porque, segundo ele, “a verdade vai derrotar a mentira no Brasil e no mundo”.

Embora a menção às fake news e à mentira seja uma referência óbvia ao massacre nas redes sociais no caso do Pix, Lula preferiu escolher outro exemplo para a plateia de petistas. Num desagravo a José Dirceu, João Vaccari Neto e Delúbio Soares — condenados e presos por corrupção em diferentes processos do mensalão e do petrolão, mas tratados pelo presidente como “vítimas da mentira” —, afirmou:

“Eles primeiro contam mentiras para tentar nos destruir. Eu sei o que eles fizeram comigo”.

Claro que não se espera que Lula apague da memória o período que passou na prisão. Mas, para quem acabara de dizer que o governo precisa se conectar com o futuro, seu discurso ainda está amarrado demais a um passado de que muitos brasileiros ainda guardam amarga lembrança. Sugere, ainda, que ele está mais preocupado com os seus e fornece muito pouco horizonte a quem já está impaciente.

No palco do PT, o presidente disse que não será fácil derrotá-lo em 2026. Pode ser, mas aí também os números da Quaest trazem um alerta importante. Em quase todos os cenários de segundo turno, Lula ganharia dos adversários em 2026, com duas exceções. Uma é Jair Bolsonaro, que está inelegível e não pode disputar. Outra, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) — que não se apresentou para jogo, mas é o preferido dos donos do dinheiro e tem a vantagem de ser desconhecido de fatia considerável de eleitores.

Claro que é cedo para vaticinar o final desse enredo, ainda mais porque o Brasil é o país das reviravoltas políticas. Mas não convém a Lula continuar teimando contra a realidade. Como diria o personagem de Hemingway, quando você faz questão de ignorar o “gradualmente”, fatalmente uma hora encontrará seu “de repente”.

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