
Fernanda Bolsonaro, esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ganhou espaço na campanha presidencial de 2026 e passou a desempenhar um papel estratégico na tentativa de aproximar o candidato do eleitorado feminino. Cirurgiã-dentista e até então discreta na vida pública, ela aparece com frequência em vídeos, propagandas eleitorais e eventos, destacando características pessoais do marido e defendendo propostas relacionadas à saúde, à família e à segurança das mulheres.
Em uma das peças da campanha, Fernanda afirma que “reeducou” o senador e o descreve como o Bolsonaro moderado da família. A estratégia busca apresentar Flávio como uma figura mais conciliadora e distante da imagem política associada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a presença da esposa procura reduzir resistências entre mulheres, segmento em que o candidato enfrenta índices relevantes de rejeição. A iniciativa também tenta ampliar a participação feminina na comunicação da campanha, tradicionalmente associada a discursos sobre segurança pública, conservadorismo e combate à criminalidade.
Levantamento Quaest divulgado em 21 de outubro aponta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 42% das intenções de voto entre as mulheres, ante 34% de Flávio. Já pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro indica que 48% das eleitoras rejeitam o senador, enquanto 40% afirmam rejeitar o atual presidente.
O cenário ajuda a explicar a ampliação do espaço de Fernanda na campanha. Segundo Cila Schulman, executiva do Instituto Ideia e especialista em estratégia eleitoral, Flávio tenta construir uma imagem mais moderada e diminuir a associação direta com declarações polêmicas do pai sobre mulheres.
A professora Malu Gatto, da University College London (UCL), também avalia que as referências à suposta “reeducação” do senador foram pensadas para torná-lo mais palatável ao público feminino. A campanha procura reforçar essa mensagem com manifestações sobre violência contra mulheres e proteção às famílias.
Além de participar de eventos e propagandas, Fernanda tem sido utilizada para abordar temas específicos. Como profissional da saúde e mãe, ela publicou um vídeo defendendo a manutenção e a ampliação do Farmácia Popular, após a circulação de informações de que o programa poderia ser encerrado em um eventual governo do marido.
A cirurgiã-dentista também aborda propostas relacionadas à aposentadoria e incentiva eleitores mais velhos a participar da votação. Em outras aparições, apresenta Flávio como um marido e pai presente, com relatos sobre a criação das filhas, Luiza e Carolina, e momentos da vida familiar.
Em discurso durante a convenção que oficializou a candidatura, Fernanda afirmou que a violência contra mulheres precisa acabar. Em um comício em Copacabana, declarou que, com o marido na Presidência, as mulheres teriam mais oportunidades e segurança.
A comunicação procura combinar temas de interesse público com uma imagem doméstica e familiar do candidato, estratégia que, segundo analistas, busca ampliar a identificação de eleitoras com a candidatura.
A atuação de Fernanda também tem provocado comparações com Michelle Bolsonaro (PL-DF), ex-primeira-dama e atual senadora eleita, que teve papel de destaque na mobilização de mulheres evangélicas e na campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
Michelle declarou apoio à candidatura do enteado, mas um desentendimento público envolvendo articulações políticas no Ceará gerou tensão entre os dois em junho. Flávio publicou um pedido de desculpas, e ambos posteriormente voltaram a aparecer juntos em manifestações de apoio à campanha.
Para o cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Fernanda passou a ocupar parte do espaço feminino que Michelle desempenhou em campanhas anteriores. A diferença, segundo analistas, está no grau de reconhecimento público e na influência política acumulada pela ex-primeira-dama.
Fernanda ainda não possui a mesma projeção entre o eleitorado evangélico, grupo no qual Michelle consolidou sua atuação. Sua participação, portanto, é vista como uma tentativa de reforçar a base já identificada com o bolsonarismo e ampliar o diálogo com mulheres que demonstram resistência ao candidato.
A socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que a presença de mulheres em campanhas conservadoras não significa necessariamente a adoção de uma agenda ampla de políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.
Na avaliação dos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a participação de Fernanda tem sobretudo um papel simbólico e pode ajudar a reforçar a identificação de eleitoras com valores familiares e religiosos. Ainda não há evidências suficientes, porém, para afirmar que sua presença esteja convertendo de maneira significativa eleitoras contrárias ao senador.
A estratégia busca humanizar a imagem de Flávio e ampliar sua comunicação com as mulheres, mas o resultado dependerá também das propostas apresentadas para segurança, saúde, renda e proteção de direitos, além da percepção do eleitorado sobre o próprio candidato.
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