
Além de ser palco de mais uma onda de direita, a eleição de domingo (4) também foi marcada por uma série de derrotas de nomes conhecidos ou outrora influentes da política brasileira, em escala regional ou nacional. Alguns, viram tentativas de reeleição frustradas. Outros, fracassaram ao ensaiarem voltar a cargos mais altos.
Esse é o caso de Renan Calheiros (MDB), que vai deixar o Senado após 32 anos, ao terminar em terceiro na disputa por uma vaga por Alagoas. Na política desde o fim dos anos 1970 e sobrevivente de diversos escândalos, Renan não sofria uma derrota eleitoral desde 1990, quando não conseguiu se eleger governador.
Para o clã Calheiros foi ainda uma dupla derrota. O filho do patriarca da família, Renan Filho, que já governou Alagoas duas vezes, fracassou em uma nova tentativa de retomar o executivo estadual ao ser superado ainda no primeiro turno – ele, pelo menos, tem mandato de senador até 2031. Ambas as derrotas, de pai e filho, ocorreram para grupos rivais, um deles liderado pelo casal JHC (PSDB) e outro pelo ex-presidente da Câmara Athur Lira (PP).
Outro parlamentar veterano que saiu derrotado nas urnas foi o senador Ciro Nogueira (PP), que assim como Renan, acumulava décadas no Congresso. Deputado entre 1995 e 2011 e depois senador por dois mandatos, Ciro se viu recentemente arrastado para o escândalo do Banco Master. Enfraquecido, ficou em terceiro na disputa por uma vaga pelo Piauí.
Veterana e membro da dinastia Sarney no Maranhão, a ex-governadora Roseana Sarney (MDB), assim como Renan, é outra sobrevivente de escândalos políticos. Atual deputada federal, ele viu frustrada sua tentativa de voltar ao Senado, terminando em terceiro na disputa. No Ceará, o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), outro veterano, acumulou mais uma derrota na sua longa carreira política ao perder a disputa pelo governo local ainda no primeiro turno.
Além das derrotas chamativas de Renan Calheiros e Ciro Nogueira, o Senado se revelou intransponível para veteranos regionais ou nomes que costumavam ter projeção nacional.
Aécio Neves (PSDB), antigo candidato à Presidência que perdeu influência a partir da Lava Jato em 2016, amargou o sétimo lugar na disputa pelo Senado em Minas Gerais. Com seu atual período de deputado federal terminando, será a primeira vez em 40 anos que Aécio não ocupará um mandato.
Outras duas ex-candidatas à Presidência, a ex-ministra Marina Silva (Rede), e a também ex-ministra Simone Tebet (PSB) também amargaram derrotas em São Paulo, apesar do apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No lado petista, a deputada, ex-ministra e ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann ficou em quarto lugar na disputa por uma vaga ao Senado pelo Paraná. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro com a ex-senadora e ex-governadora Benedita da Silva, veterana da política desde o início dos anos 1980. Outros petistas veteranos que perderam disputas para o Senado incluem o ex-governador Jorge Viana (AC), o ex-ministro Paulo Pimenta (RS), o ex-prefeito Décio Lima (SC), e a deputa Erika Kokay (DF). Randolfe Rodrigues (AP), atual líder do governo Lula no Senado, por sua vez, não foi reeleito.
Em Roraima, Chico Rodrigues (PSB), veterano do Congresso desde o início dos anos 1990, não conseguiu se reeleger ao Senado ao ficar em quarto lugar. O mesmo ocorreu com Acir Gurgacz (PDT) em Rondônia, que tentava voltar ao Senado. Em Tocantins, o veterano Carlos Gaguim, nome conhecido da política local desde a emancipação do estado, em 1988, amargou a quarta posição.
Em Santa Catarina, o ex-prefeito, ex-governador e senador Esperidião Amin (PP), que começou sua carreira política pela Arena, antigo partido de sustentação do regime militar, viu sua tentativa de reeleição frustrada ao terminar em terceiro e ser superado por dois bolsonaristas, incluindo Carlos Bolsonaro.
No Rio de Janeiro, o ex-prefeito, ex-ministro, ex-senador e pastor Marcelo Crivella (Republicanos) amargou o sexto lugar na disputa pelo Senado. Outros derrotados ao Senado que já tiveram influência incluem Eunício Oliveira (MDB-CE), Germano Rigotto (MDB-RS), Sérgio Petecão (PSD-AC) e Rose de Freitas (MDB-ES).
Nestas eleições, o PT apresentou candidaturas de veteranos da sigla que haviam se envolvido em escândalos nos anos 2000 e 2010 e buscavam uma redenção nas urnas.
José Dirceu, antigo estrategista do PT e ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula, tentou voltar à Câmara Federal mais de duas décadas depois de ser cassado na esteira do escândalo do Mensalão. Lula afirmou em setembro que uma vitória de Dirceu seria uma "reparação histórica". O ex-ministro, hoje com 80 anos, recebeu 78 mil votos no domingo em São Paulo, mas não conseguiu se eleger.
O mesmo ocorreu com Delúbio Sares, ex-tesoureiro e quadro histórico do PT, que também foi personagem do escândalo do Mensalão duas décadas atrás e depois ainda entrou na mira da Lava Jato em 2018. Candidato a uma vaga à Câmara pelo estado de Goiás e usando como slogan "O amigo do Lula", Delúbio recebeu cerca de 14 mil votos e ficou distante da vaga.
No Paraná, o ex-deputado petista André Vargas, que se tornou o primeiro político condenado pela Lava Jato em 2015 por seu envolvimento com o doleiro Alberto Youssef, também fracassou nas urnas ao tentar voltar à Câmara. Vargas chegou a ficar preso entre 2015 e 2018. No domingo, recebeu 34 mil votos e amargou a suplência.
Por outro lado, o ex-deputado João Paulo Cunha, outro antigo condenado no Mensalão, vai retornar à Câmara após mais de uma década. Disputando uma vaga de deputado federal por São Paulo, foi bem-sucedido ao conseguir 109 mil votos.
Alguns caciques conseguiram se eleger ou não estavam na disputa, mas acabaram vendo seus grupos políticos saírem enfraquecidos das urnas. No Pará, o ex-governador Helder Barbalho (MDB) se elegeu senador, tendo o patriarca da família, Jader Barbalho, como suplente. No entanto, a família viu sua candidata ao governo do estado, Hana Ghassan (MDB), sair derrotada ainda no primeiro turno por Dr. Daniel Santos (Podemos).
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), que não disputava eleição, viu uma derrota mais ampla do seu grupo para rivais bolsonaristas. Seu candidato ao governo do Amapá, Clécio Luís (União), foi derrotado no domingo, apesar da enorme coalizão de 12 partidos e 15 dos 16 prefeitos do Amapá, montada por Alcolumbre.
A derrota alcançou também a disputa pelo Senado, com a candidata diretamente apoiada por Alcolumbre, Alliny Serrão (União Brasil-AP), amargando a quinta colocação.
A disputa pela Câmara também se revelou instransponível para vários veteranos Brasil afora. No Rio de Janeiro, Chico Alencar (Psol), rosto conhecido da política local desde o final dos anos 1980, não conseguiu se reeleger. O mesmo ocorreu com Tarcísio Motta, um dos fundadores do Psol, que também não vai voltar à Câmara.
Pelo PT, Rui Falcão, ex-presidente da sigla, e o ex-ministro Orlando Silva, não se reelegeram para a Câmara por São Paulo.
Por sua vez, o ex-presidente da Câmara que liderou o impeachment de Dilma Rousseff e depois caiu em desgraça, o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos) fracassou na sua nova tentativa de conquistar um mandato de deputado federal, desta vez por Minas Gerais.
No Paraná, os outrora influentes ex-governadores Roberto Requião (PDT) e Beto Richa (PSDB), fracassaram em tentativas de conquistar mandatos na Câmara Federal. A derrota deve encerrar a longa carreira de Requião, ex-prefeito de Curitiba e três vezes governador do Paraná, e que hoje tem 85 anos. Já Richa, que também foi prefeito da capital e governou o Paraná por dois mandatos, viu a recuperação da sua carreira interrompida neste pleito. Após ser envolvido na Lava Jato em 2018 e sofrer uma derrota humilhante para o Senado no mesmo ano, ele havia conseguido se eleger deputado em 2022.
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