domingo 19 de setembro de 2021
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sexta-feira 30 de julho de 2021 às 08:37h

Como a ascensão de Ciro Nogueira altera os rumos do governo Bolsonaro

NOTÍCIAS, POLÍTICA


Ao tomar posse no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro montou o governo sobre três pilares conforme matéria da revista Veja: os apoiadores, os militares e os superministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Essa arquitetura era coerente com o que o ele prometeu na campanha de 2018, quando se apresentou como candidato da extrema direita, enalteceu as Forças Armadas e defendeu a agenda liberal na economia e o combate à corrupção. Apesar dos quase trinta anos de experiência no Congresso e de seus sete mandatos de deputado federal, o ex-capitão, mesmo após vestir a faixa presidencial, insistiu na estratégia de atacar a “velha política” e na promessa de não negociar com os partidos, especialmente com os líderes do Centrão, considerados por ele a essência do fisiologismo. Sectário, Bolsonaro apostou desde o início no confronto, na tensão e até na intimidação. Jamais na moderação e no diálogo. Deu no que deu. Acossado por uma CPI e mais de uma centena de pedidos de impeachment, em desvantagem nas pesquisas eleitorais e com sua administração reprovada por metade da população, o presidente se viu obrigado a redesenhar completamente o seu governo — em nome, claro, de manter o poder.

TIME ESCALADO - Bolsonaro e os novos aliados: a “alma do governo”, segundo ele próprio, foi entregue ao Centrão -
TIME ESCALADO - Bolsonaro e os novos aliados: a “alma do governo”, segundo ele próprio, foi entregue ao Centrão – Reprodução/Twitter

Com a minirreforma ministerial, Bolsonaro entregou a “alma do governo”, como ele mesmo definiu numa entrevista, ao Centrão, com a nomeação do senador Ciro Nogueira (PI) para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. O grupo político do parlamentar, antes demonizado pelo mandatário, transformou-se em solução e, de quebra, protagonista quase solitário da nova administração, já que dos três pilares iniciais do governo restou apenas o núcleo militar, mesmo assim desidratado. Os radicais ficaram pelo caminho, e a figura dos superministros deixou de existir até como mera peça de ficção (veja o quadro). A aproximação com o Centrão começou em meados do ano passado e sempre foi regida pela seguinte equação: quanto mais o presidente se enfraquecia, mais ele estreitava laços com a “velha política”. Em março, as partes noivaram, com a nomeação da deputada Flávia Arruda (PL-DF) para a Secretaria de Governo. Agora, casaram de vez. Um casamento de conveniência, daqueles em que os noivos superam sérias diferenças do passado. Um dos principais auxiliares do presidente, o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, associou o Centrão a um grupo de ladrões. Já Ciro Nogueira chamou Bolsonaro de fascista. O dote político envolvido no enlace facilitou o perdão.

Em seu pior momento desde o início do mandato, Bolsonaro aposta no Centrão para aprovar projetos prioritários no Congresso, garantir alguma estabilidade política, afastar o fantasma da perda da Presidência e conseguir uma estrutura de ponta para disputar a reeleição. Já os partidos do Centrão, como o PP de Ciro Nogueira, o PL e o Republicanos, que cresceram nas eleições municipais pegando carona em programas do governo federal, acham que com a aliança podem aumentar suas bancadas na Câmara dos Deputados, que são a fonte de seu poder de negociação. Se o candidato à reeleição for derrotado, nada impede essas legendas de aderir ao presidente eleito. Ou seja: o grupo não tem nada a perder — e pode ganhar ainda mais até a eleição. O próprio Ciro Nogueira apoiou Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. “Diferentemente de Sarney, de FHC, de Lula e até do primeiro mandato de Dilma Rousseff, Bolsonaro não tem nem de longe uma base organizada e tão articulada quanto a dos governos anteriores. Faltavam articuladores. Agora, com o Ciro Nogueira, os profissionais estão entrando em campo”, diz o cientista político Paulo Kramer, que ajudou a formular o plano de governo de Bolsonaro em 2018.

arte Governo

Presidente do PP, Ciro Nogueira tem atuação destacada nos bastidores e é conhecido pelo perfil moderado, pela disposição ao diálogo e pelo pragmatismo. Em Brasília, ele faz dobradinha com Flávio Bolsonaro (Patrio­ta-RJ) para negociar projetos e nomeações enquanto mantém uma forte relação de amizade com Renan Calheiros (MDB-AL), que, além de oposicionista, é desafeto do Zero Um. Ciro sabe que não mudará o estilo do presidente. Sabe que Bolsonaro não abandonará a estratégia de confronto que o levou à Presidência. Mas, otimista por natureza, ele acredita que pode construir pontes para o chefe — seja com fatias do eleitorado que hoje reprovam Bolsonaro, seja com instituições nas quais Bolsonaro acumula derrotas, conflitos e arestas. Uma das prioridades do novo ministro da Casa Civil é resolver a situação de debilidade do governo no Senado. Catalisador do processo de desgaste da imagem presidencial, a CPI da Pandemia é controlada por oposicionistas e independentes, que têm sete dos onze assen­tos da comissão. Ciro Nogueira apostará no diálogo para tentar equilibrar esse jogo. Ele só não revela se os termos do diálogo são aqueles naturalmente associados ao Centrão — cargos, emendas e outras benesses.

Outra missão no Senado é restabelecer algum tipo de conversa entre o Planalto e o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ex-comandante da Casa, Alcolumbre é a principal fonte de resistência à indicação de André Mendonça, titular da Advocacia-Geral da União (AGU), para o Supremo Tribunal Federal (leia a reportagem na pág. 38). Ciro Nogueira quer convencê-lo a apoiar Mendonça e, para tanto, está disposto a empenhar os esforços do governo federal na reeleição de Alcolumbre ao Senado em 2022. Outra preocupação é com o próprio STF. Na Corte, correm duas denúncias e três inquéritos contra o novo ministro, além de casos que podem agravar a situação política de Bolsonaro. Um deles trata da suposta rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Outro, do esquema das fake news, que tem como alvos o vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, e o deputado Eduardo Bolsonaro, o Zero Três. O obje­tivo do novo ministro nas tratativas com os representantes dos outros poderes será sempre desanuviar o ambiente e tentar apagar o fogo que quase sempre é ateado pelo presidente.

ADMIRAÇÃO - Com Lula: o petista já foi considerado pelo senador o melhor presidente de todos os tempos -
ADMIRAÇÃO - Com Lula: o petista já foi considerado pelo senador o melhor presidente de todos os tempos – ./Reprodução

À frente da Casa Civil, pasta que coordena os ministérios, Ciro Nogueira também quer tirar projetos do papel e anunciar medidas capazes de garantir a recuperação da popularidade do presidente. Caso do novo Bolsa Família, que deve ter o valor duplicado e ser rebatizado, já que o programa é associado ao ex-presidente Lula, líder nas pesquisas de intenção de voto para 2022. Até o fechamento desta edição, o governo pensava no nome Auxílio Brasil. O aumento do valor, que depende de uma fonte de custeio, é alvo de conversas entre o chefe da Casa Civil, o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), outro expoente do Centrão, e a equipe econômica. Com berço eleitoral no Nordeste, Ciro Nogueira e alguns de seus colegas parlamentares se dizem preocupados com os estragos provocados pela fome e pela inflação dos alimentos, que cresceram de forma significativa durante a pandemia e a crise econômica. Por isso, eles cobram responsabilidade não apenas com as contas públicas, mas com a questão social. A lógica é a seguinte: não adianta reajustar o benefício num valor que será comido pela disparada de preços.

Até aqui, as conversas sobre o assun­to se dão com certa harmonia. O fato de o Centrão defender a agenda liberal, que na prática não conta com o entusiasmo do presidente, ajuda. O fato de Ciro Nogueira não descartar ideias caras a Paulo Guedes também. O ministro da Economia, por exemplo, cogita distribuir dividendos de estatais para a população. Pela ideia em estudo, o bolo será maior quanto maior for o lucro das empresas. Companhias deficitárias puxarão o valor a ser repartido para baixo. Parece só transferência de renda, mas a iniciativa também tem como pano de fundo uma tentativa de convencer a população a apoiar a privatização de estatais que vivem no vermelho. A economia, por sinal, é considerada pelo chefe da Casa Civil o fator decisivo da próxima corrida presidencial. Há uma crença no ministério, misturada com torcida, de que a recuperação econômica impulsionará a popularidade e as intenções de voto de Bolsonaro. Que o crescimento do PIB neste e no próximo ano reaproximará o presidente dos eleitores. Que a conquista de um novo mandato — hoje ameaçada — se tornará provável caso o porcentual de ótimo e bom de Bolsonaro volte à casa dos 40%. Hoje, segundo as pesquisas, está em cerca de 25%.

COMPOSIÇÃO - Com Michel Temer: cargos e ministérios no governo emedebista -
COMPOSIÇÃO - Com Michel Temer: cargos e ministérios no governo emedebista – Reprodução/Facebook

O desafio do novo chefe da Casa Civil é garantir que a combinação entre economia e política funcione. Para isso, ele terá de conter os arroubos de Bolsonaro. Não será fácil, mas o ministro tem um plano. Ele pretende municiar diariamente o presidente com realizações do governo e dados positivos, para que o chefe divulgue uma agenda positiva e deixe de fazer fumaça e comprar brigas desnecessárias em manifestações públicas. Em março, por exemplo, o presidente perdeu a oportunidade de capitalizar a inauguração de um trecho de ferrovia em Goiás porque, na ocasião, preferiu chamar de “mi-mi-mi” as queixas sobre o número de mortos em razão da pandemia. Apesar de não constar de suas atribuições oficiais, Ciro Nogueira também tentará ajudar na formação da coligação eleitoral com a qual Bolsonaro tentará a reeleição. O ministro acha que o presidente precisará do apoio formal de partidos grandes, para dispor de boas fatias da propaganda e do fundo eleitoral em 2022. Por isso, é a favor de que Bolsonaro se filie a uma legenda do próprio Centrão. O PP, em tese, é uma das possibilidades sob avaliação.

“A aliança com o Centrão é boa para Bolsonaro porque afasta definitivamente o perigo de impeachment. O segundo ponto é que estabiliza seu governo e permite que ele adote uma agenda positiva, com aprovação de medidas no Congresso. Acredito que a recuperação da economia e o avanço da vacinação tendem a favorecer politicamente o presidente. Ele deve ao longo deste ano e do ano que vem recuperar um pouco de sua popularidade”, diz o cientista político Renato Perissinotto, da Universidade Federal do Paraná. Professor visitante da Universidade George Washington e fundador da Ideia Big Data, Maurício Moura também aposta em resultados positivos: “O Centrão talvez amenize ou crie freios para qualquer ímpeto de Bolsonaro ou dos bolsonaristas de testar as instituições. Os políticos do Centrão também tentarão a reeleição e não querem ser dragados por um processo eleitoral que não tenha credibilidade perante a opinião pública”.

O presidente, como se sabe, defende a adoção do voto impresso e já disse que, se ele não for instituído, a eleição pode não ser realizada. A retórica golpista é rechaçada pelo Centrão. Em conversas reservadas, Ciro Nogueira já afirmou ser contrário ao voto impresso e classificou o tema como mais um daqueles destinados a animar o auditório. O ponto fulcral é que o novo ministro está fechado com a reeleição do chefe. Mas a manutenção da aliança dependerá do desempenho de Bolsonaro. Se ele não decolar nas pesquisas e continuar a semear confusão, o Centrão desembarcará. O grupo apoiou todos os presidentes desde a redemocratização. Em 2022, de novo, marchará ao lado do vencedor, seja ele Bolsonaro ou não.

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