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quarta-feira 5 de junho de 2024 às 13:36h

80 anos do Dia D: Mulheres espiãs pavimentaram caminho da invasão aliada na Normandia

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À medida que soldados aliados desembarcavam no norte da França, em 6 de junho de 1944, as linhas de defesa da Alemanha nazista foram confrontadas com uma série de desafios inesperados. A comunicação entre os centros de comando e o front não funcionaram como deveriam, e os reforços e insumos esperados não chegaram aos pelotões. Algo na retaguarda havia mudado pouco antes do Dia D.

Parte da confusão atrás das linhas inimigas, que ajudou a desarticular a defesa alemã, só foi possível graças à ação de uma rede peculiar de agentes: as espiãs do Special Operations Executive (SOE), o serviço de inteligência, sabotagem e reconhecimento do Império Britânico na Europa ocupada. Enviadas pelo comando britânico ao território inimigo quando as tropas regulares eram incapazes de penetrar as defesas alemãs, as espiãs cumpriram um papel fundamental ao produzir informações confiáveis para o comando militar e articular a resistência em solo francês.

— Sempre houve mulheres espiãs, da Guerra Civil americana voltando até Troia. O que é inovador na Segunda Guerra é que elas estavam de uniforme: eram militares subordinadas ao comando militar e faziam parte dos planos de batalha. Esta foi uma unidade tática real, implantada em combate para a operação do Dia D — explicou a escritora Sarah Rose, autora do livro As Mulheres do Dia D (publicado no Brasil pela editora Sextante, em 2022), em entrevista exclusiva a Renato Vasconcelos, do jornal O Globo.

Rose pesquisou e recontou a história de três das 39 mulheres enviadas pelo Reino Unido para a França ocupada e para a França de Vichy, entre 1942 e 43, como parte da preparação para uma invasão que ninguém sabia ainda quando iria acontecer. A rede de unidades da resistência criada por espiãs como Lise de Baissac e Andrée Borrel foi responsável por virtualmente “isolar a Normandia” do resto da França antes da chegada dos aliados, segundo a autora.

Antes que os aliados chegassem às praias da Normandia, muito do trabalho que dificultou a reação alemã já havia sido feito. Adolescentes, camponeses e idosos recrutados pelo SOE, com ajuda das espiãs, já haviam cortado cabos de telefonia e telégrafo — forçando os alemães a se comunicar por rádio, o que possibilitou a interceptação do sinal pelos aliados — e explodido 950 trechos de ferroviárias usadas pelos nazistas.

Recrutando agentes secretas

Pouco depois do armistício assinado pela França com a Alemanha, em 1940, o Reino Unido criou o SOE com o objetivo de “incendiar a Europa” e apoiar movimentos nacionais de resistência nos países ocupados pelos nazistas. O grupo se especializou no uso de técnicas de guerra irregular, aprendidas pelos britânicos durante a luta contra o Exército Revolucionário da Irlanda (IRA) décadas antes. O recrutamento das agentes femininas pelo quartel-general em Baker Street, porém, não foi imediato nem espontâneo.

— A razão pela qual as mulheres foram recrutadas é porque, em 1942, o Reino Unido já estava em guerra havia três anos. Todos os homens capazes já haviam sido convocados. Os agentes treinados e com fluência em francês já eram conhecidos [pelo inimigo]. Eles tiveram que usar mulheres — explicou Rose.

Ao contrário dos filmes de ficção científica, o recrutamento das agentes não passava por testes de resistência ou comprovação de habilidades físicas extraordinárias. Segundo a escritora, apenas dois requisitos eram obrigatórios:

— As únicas coisas de que elas precisavam para serem recrutadas era ter francês fluente, totalmente adaptado ao usual da época, e um passaporte britânico ou não francês — disse a autora, pontuando que o veto ao passaporte francês seria uma imposição do general Charles de Gaulle, que não admitia cidadãos franceses operando sob o comando britânico.

General Charles de Gaulle, chefe do Governo provisório — Foto: AFP
General Charles de Gaulle, chefe do Governo provisório — Foto: AFP

Capacidade operacional

Apesar do requisito simples para entrar, as agentes secretas do serviço britânico adquiriram expertise em suas missões táticas antes de serem desembarcadas em solo francês. Andrée Borrel, uma das responsáveis pela criação da rede de resistência no norte da França, foi a primeira paraquedista mulher da história, recebendo instrução de salto na RAF Ringway, principal escola de paraquedistas da Inglaterra, localizada perto de Manchester. Antes mesmo de ser lançada, ela havia sido parte da resistência em solo francês, com a missão prioritária de enviar agentes descobertos e pilotos abatidos para regiões seguras, cruzando-os para o Reino Unido via Espanha.

Lise de Baissac, outra espiã-paraquedista, alcançou o posto de número dois em um grupo da resistência francesa no norte da França, que entrou em ação na preparação do terreno para o Dia D. Mesmo após o desembarque, quando a operação na Normandia ainda estava em curso, ela continuou a liderar operações de sabotagem e inteligência, incluindo um serviço de informar as tropas aliadas sobre as posições para as quais os nazistas estavam recuando.

Rose destaca que a capacidade operacional e as ordens para as missões mais arriscadas não suprimiram os traços femininos inerentes a cada uma das espiãs. Uma delas Odette Sansom, justificou seu alistamento aos superiores do SOE pelo fato de ser mãe, algo que inicialmente foi visto com preocupação pelos seus superiores homens, que acharam que poderia ser uma fraqueza.

Odette Sansom — Foto: Acervo Museu Imperial da Guerra
Odette Sansom — Foto: Acervo Museu Imperial da Guerra

— Nós temos os relatos dela, do homem que a recrutou e de seu comandante. E eles estavam preocupados que ela não conseguisse ser uma espiã efetiva, uma soldado efetiva, porque ela tinha filhos em casa. Mas ela respondeu com a linguagem mais maternal possível: ‘O que acontecerá com as minhas crianças se o Reino Unido cair? Que tipo de vida elas terão?’ — menciona a autora.

Destinos diversos

Além de Andrée, Lise e Odette, outras 36 mulheres participaram da operação do SOE na França. Embora elas tenham sido reconhecidas anos depois, cada uma teve um destino diferente em um cenário de guerra que não diferencia homens e mulheres.

Odette e Andrée foram presas pelos nazistas antes da chegada dos aliados. Morta em um campo de concentração nas montanhas dos Vosges, na Alsácia – o único em solo francês –, a paraquedista Andrée recebeu uma injeção com veneno. Relatos de carcereiros dizem que ela sobreviveu à injeção e lutou até momentos antes da câmara de incineração ser fechada.

"As mulheres do Dia D", livro de Sarah Rose — Foto: Divulgação
“As mulheres do Dia D”, livro de Sarah Rose — Foto: Divulgação

Odette foi torturada no campo de concentração de Ravensbrück, sobrevivendo por causa de uma mentira inventada no momento da captura. Identificada pelos nazistas ainda em 42, ela se identificou como esposa do seu oficial comandante, Peter Churchill, quem ela disse ser sobrinho do premier britânico. A mentira rendeu aos dois um passe de prisioneiros especiais. Isso não evitou que fossem torturados, mas os tirou com vida da França anos depois. Odette teve um papel fundamental, ao fim da guerra, em identificar e denunciar os oficiais alemães que torturaram aliados.

Lise também sobreviveu à guerra, tendo um papel ativo até os últimos dias da invasão na França, com a tomada de Paris. Ela trabalhou para a BBC após sair do SOE e viveu uma vida longa, falecendo aos 94 anos, em 2004.

Apagamento histórico

Embora surpreendentes e relevantes, as operações envolvendo as espiãs do SOE foram esquecidas por um longo tempo — de acordo com Rose, de forma proposital. Além do aspecto material envolvendo a função de espionagem (que não deve deixar rastro), o emprego de mulheres na guerra foi motivo de vergonha e embaraço inclusive entre os aliados.

— Por um lado, a história da guerra foi escrita por homens, normalmente para outros homens. Mas há uma razão mais intencional. Foi embaraçoso para o Reino Unido e para os aliados de uma maneira geral admitir que sacrificaram mulheres em combate. Foi a primeira vez que eles tiveram de fazer isso, e violou um tabu — explicou Rose.

Além disso, admitir que a libertação da França passou pelas mãos de mulheres mandadas para o front desagradava uma figura histórica em particular: o general Charles de Gaulle. Na avaliação da autora, a participação feminina no front não fazia parte da imagem que o líder francês queria para a nação independente que estava por vir.

— Quando você está tentando projetar força, dizer que mulheres ajudaram na vitória não contribui para o mito nacional — disse Rose. — Ele tentava criar um mito nacional para a França democrática, e esse mito enterra intencionalmente coisas que ele considera fracas, como as mulheres.

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